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SUPERAÇÃO NOS 600 Kms DO AUDAX Giselle Borsato Moreira, tornou-se no último fim de semana a primeira paranaense e a quinta brasileira a completar a série do Audax. O que é o Audax - www.audaxparana.com.br/o_que_e_audax Acompanhe o relato da Giselle, todos os desafios e superação para encarar os 600 kms. Confesso que eu achei que não ia conseguir. Não durante a prova, mas alguns dias antes, eu pensava que não ia ter forças para completar o percurso. Duas semanas antes do 600km eu me machuquei treinando, fiquei uma semana parada e sentindo muitas dores. Quando senti que aliviou, fui treinar, horrível. Pedalei 80km e fiquei exausta, parecia que eu nunca tinha pedalado na vida. No dia seguinte, mais pedal, me senti pior ainda, mal mesmo. Pensei: "e agora?", os 600 seria dentro de 5 dias e eu sem treino. Concentrei-me, completar a serie pra mim virou questão de honra. Então, dentro das possibilidades, não adiantaria eu me matar de treinar em cima da hora, o único jeito naquele momento era treinar o psicológico. Como eu já conhecia o percurso, eu o percorria todas as noites antes de dormir, calculando horários e melhor estratégia para não me desgastar e poupar máximo de energia possível. Largamos na sexta às 23h e 59min, preocupação total, tempo frio e chuvoso, não teve trégua, 80% do tempo em que pedalei choveu. A partir dali, jamais pensei em desistir, mas a preocupação era constante, logo no começo houve um tombo, comigo e com meu companheiro, tudo bem, nada grave, continuamos e na descida da serra a preocupação aumentou, muito lisa, molhada, obras na pista, óleo, fluxo de caminhões, mais tombos, dessa vez não comigo, mas com meus companheiros, fiquei mais preocupada ainda com nossa segurança. Graças a Deus, tudo certo, alguns machucados, mas meus amigos estavam bem. Continuamos... Meus pés começam a me incomodar, paramos no pc1 as 4hrs da madrugada, quase 100km já e eu estava me sentindo ótima, lembrei daquele 80km horrível que fiz uns dias antes e ali eu estava tão bem que parecia não ter pedalado, por enquanto, psicológico controlado, mas meus pés...Estavam dando trabalho já, completamente congelados e meus dedos doendo muito. Eu tinha pressa, pois quanto mais tempo eu ficasse parada, mais ele congelava e mais eu sentia dor, então...pelotãozinho com 4, eu, Rogenio, Celio e França revezando até matinhos pra conseguir pegar o ferry boat de 5:30 da manha de sábado, conseguimos. Amanhecendo o dia, já em Guaratuba sentido Garuva-Joinvile a estrada estava mais tranquila, meus pés um pouco melhores, corpo e mente por enquanto ótimos, estamos com 140km já rodados. Meio dia chegamos de volta a Guaratuba, com fome e cansados, paramos pra comer, dar uma lavada nas bikes e lubrificar as correntes, cerca de 1hr. Estávamos eu, Rogenio e Celio, com 270km já nas costas, a princípio todos bem dentro das possibilidades, o sol aparece e meus pés aliviam, pois parou a chuva e secou um pouco a sapatilha. Agora rumo ao pc3 no pé da serra. Essa era a maior expectativa, pelo menos a minha, subir a serra do mar, 20km de subida. A chuva volta, fluxo intenso de caminhões, cansaço começa a bater, as pernas começam a inchar, o psicológico já se abala. Nosso grupinho se desfaz, cada um de nós sobe em seu ritmo, alcanço o celio, ele me parece mal, mas não conversamos muito, o Rogenio já estava mais à frente e eu não via a hora de chegar no pedágio. Quando começou a chuva na serra, meus pés se manifestaram, dor extrema, mas não tinha o que fazer, apenas aguentar e mudar o foco do pensamento, pensar no pedágio, lá eu poderia receber apoio, quem sabe uma solução para meus pés que tanto doíam, além disso, eu queria roupas secas e quentes. Cheguei no pedágio, lá encontro o Rogenio e o França. Junto comigo o celio, meio abalado, mas firme na medida do possível. Eu estava em estado deplorável, meus pés pareciam não reagir aos meus estímulos para aquecê-los, sentia muito frio, estava molhada e a chuva não parava. Com 365km nas costas já eu queria agora era chegar na Vikings para um banho quente e partir pra Ponta Grossa...E meus pés dando trabalho. Chegando na Associação, fui pro banho, meia hora, roupas quentes, pés encapados até com luvas cirúrgicas para evitar umidade, pois a chuva não parava e a sapatilha estava encharcada. Rumo a estrada, nessa vez sozinha. Num certo momento a chuva deu uma aliviada, meus pés também me deram uma chance, mas veio um outro problema, como já era a segunda noite pedalando e eu não havia parado pra dormir nem um minuto, o sono me pegou. Dormi pedalando, acordava e estava no meio da pista, dormia de volta sem sentir e bati no barranco. Parei, dei um tempo, mas era pior, se eu parasse, apagava, continuei, lutando contra o sono, extremamente difícil, meu estado de exaustão já estava chegando no limite. Cheguei no pc5 as 4:30 da madrugada de domingo, ainda faltavam 100km, já havia completado 500, os mais difíceis da minha vida, mas lá fui eu. Até ai meus pés estavam calmos, pois a chuva tinha parado, mas o sono não. Mais vezes eu dormi na bike. Vento contra, cansaço, sono, subidas, dores no corpo, a essas alturas já estava no meu limite, extremamente exausta, começo a chorar, me abalo demais. Eu não conseguia mais pensar, nem falar, nem me mexer, nem comer e nem beber mais nada, joelhos já inchados, pés amortecidos e formigando, nas subidas meu ciclo marcava 8km/h, fiz 100km em 6hrs. Cheguei na Serra São Luis do Purunã em estado extremo de exaustão. Ouvi meu pai me perguntando: "Quer parar?" Respondi a ele com a cabeça que não e pensei comigo, nunca, jamais em hipótese alguma, eu já estava com 560km nas costas, faltavam apenas 40km. E no fundo meu pai sabia, que eu jamais ia desistir. Desci a Serra, o sono me pegou de volta, dormi novamente, meus pés apesar de estarem mais secos, voltou a incomodar, dessa vez com mais intensidade, lembrei que eles estavam encapados com luvas cirúrgicas para mantê-los aquecidos, só que com aquele sol que estava fazendo domingo de manhã, aquilo estava me matando de dor, sentia meus dedos latejando, 10hrs da manhã e faltando 20km pra eu chegar, achei melhor nem mexer com eles, continuei assim mesmo. As 10:50 eu cheguei, consegui, 600,1km em aproximadamente 34horas. Primeira coisa, aquele abraço em meu pai! Segunda coisa que fiz, tirar tudo que estava enrolado em meus pés, que dor, doía muito, eu chorava de dor. Mas na verdade, não sei se meu choro era de alívio por ter acabado, pelo sofrimento que passei ou se era pela dor, na verdade também agora isso é o que menos importa. Pra mim o importante foi terminar, estabeleci uma meta e cumpri. Alívio, série Audax Paraná 2010 completada com sucesso Agradeço a todos que torceram por mim, aos que me deram apoio, que me ligaram, mandaram mensagens de sucesso, mas agradeço principalmente ao meu pai, por tudo que fez por mim, por tudo que enfrentou junto comigo e sofreu também vendo o meu sofrimento, ao Jairo que também abriu mão de tudo pra estar ali comigo e que também sofreu junto. Ao meu amigo Rogênio que enfrentou algumas dificuldades antes de largar e durante a prova também, admiro ele pela sua determinação, pela sua garra no esporte, sua coragem, sua capacidade física, parabéns. Aos que não conseguiram terminar, sintam-se vencedores, vocês chegaram no 600km, como eu disse, não é qualquer um que consegue isso. Ninguém pode questioná-los de forma alguma os motivos pelos quais desistiram. Parabéns a todos! Parabéns também a organização da prova que se esforçaram ao máximo para o sucesso do evento. Agora eu vou descansar, desinchar meus joelhos, minhas pernas, cuidar dos meus pés que não sobrou muita coisa. Até a próxima pessoal! Final do ano tem mais. Abraços Giselle Borsato Moreira |
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